Quanto vale uma assinatura?

Por Riven Melito, | Categoria: Arte

Todo mundo já deve conhecer esta: Pablo Picasso costumava não pagar quando ia a restaurantes e bares. Na verdade, ninguém cobrava dele, pois afinal, era Picasso, renomado artista de nível mundial. Mas uma vez um garçon pergunta se o estimado cavalheiro iria pagar a conta, ao que Pablo gentilmente pede por um guardanapo, faz um desenho rápido e devolve ao garçon entusiasmado. Porém no meio do caminho, percebe algo e volta. – Senhor Picasso, o senhor esqueceu de assinar. Ao que o mestre responde:

“-Eu estou pagando a conta, e não comprando o restaurante.”

Em primeiro lugar neste post precisamos fazer uma diferenciação. Artistas não são celebridades, tudo bem? Celebridades são pessoas geralmente com o talento de serem celebridades, enquanto artistas realmente contribuem com alguma coisa de nível cultural. Não vem ao caso dar nome aos bois nem qualificar o valor de tais contribuições, mas se torna necessário diferenciar um pouco estes dois tipos. Eu inclusive acho que o Bolsonaro devia é chamar as celebridades de vagabundos, mas tudo bem. Já vivemos em uma sociedade que sucateia a cultura a muito tempo para nos incomodarmos com a opinião do senhor ali. E eu me incluo. Eu, Riven, que estou escrevendo este post, neste momento. Eu me considero um artista, e não sou vagabundo (até gostaria, mas daí teria que virar político e parar de ilustrar). Mas a questão a que me refiro aqui é: quando o nome do artista é maior do que sua obra.

Isso é até muito comum no mundo capitalista de hoje. Um projeto arquitetônico de uma pessoa renomada vale muito mais do que o trabalho de um garoto que ninguém conhece. Ser operado por um cirurgião megablaster da quinta dimensão custará uma pequena fortuna, e até o artesanato que apareceu na televisão passa a ser mais caro do que os outros na feira. Mas não podemos ser radicais. Qualidade é um diferencial sim. O cirurgião megablaster é mais caro pois tem muita experiência e conhecimento, e trabalha muito melhor. Isto justifica o preço. Pablo Picasso vendia suas telas por milhares de dólares, e hoje elas vale milhões. É só porque o nome do artista é importantíssimo? Mas vamos lembrar que Picasso passou muitos anos praticamente na penúria, e só fez sucesso mesmo bem mais tarde na vida, quando já havia adquirido muita experiência e amadurecido sua obra.

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Obra “Meu Limão” (2000) de Beatriz Milhazes, que foi vendida por US$2,1 milhões em leilão da Sotheby’s

 

Vamos considerar também o caso de Beatriz Milhazes, artista contemporânea brasileira, que em 2012 vendeu seu quadro “Meu Limão” pela bagatela de US$ 2,1 milhões. O quadro de um artista brasileiro vivo mais caro da história. Ok, isso é maravilhoso, não só para ela (que deve ter adorado), mas também para considerarmos que um artista brazuca consiga chegar a estes níveis astronômicos de valor (e existem outros nomes, é claro). Invejosos podem dizer: mas e se qualquer pessoa tivesse feito esse quadro, venderia pelo mesmo valor? Então eu retorno a pergunta, e argumento: Qualquer pessoa faria esse quadro? Mesmo? A artista mesmo brinca que “levou 25 anos trabalhando para fazer sucesso da noite para o dia”, o que significa que não foi da noite para o dia. O cara que nunca estudou não conseguiria fazer esta obra. E ainda, mesmo que fizesse um quadro bonito qualquer, seria apenas um quadro bonito qualquer, porque não tem o envolvimento, a experiência, a técnica, o planejamento, e o esforço que durou mais do que apenas a criação do quadro. Jogar umas tintas na tela não é fazer pintura, é fazer bagunça. Só isso.

E repare que Beatriz nem mesmo coloca seu nome na tela. Não há necessidade. Seus quadros tem a identidade do artista. E esta é uma tendência nos trabalhos contemporâneos. Cada vez mais os criadores deixam sua obra sem assinatura. Talvez para mostrar que o que importa é o conteúdo, e não o nome?

 

Obra "Parede com Incisões a La Fontana II", de Adriana Varejão, vendido por R$ 2,72 milhões em 2011.

Obra “Parede com Incisões a La Fontana II”, de Adriana Varejão, vendido por R$ 2,72 milhões em 2011.

 

É óbvio também que não devemos ser levianos nestas interpretações. O fato de um artista ter notoriedade influencia nos preços de seus trabalhos, bem como a venda milionária de uma obra faz com que todos os outros trabalhos sejam influenciados também, elevando preços e atraindo mais e mais notoriedade. É um círculo. Venda mais caro, fique mais famoso e venda mais caro. Isso é o capitalismo, e todos tem o direito de sobreviver de seu ofício, então de boa. Você sabia que os artistas de rua (argh, que identificação horrível) Osgemeos, também brasileiros, já não assinam mais seus trabalhos quando grafitam nas ruas? E eles ainda fazem isso, quando não estão pintando murais imensos por encomenda. Ainda saem a noite com a galera e apenas grafitam, como a molecada faz. Só que sem assinar. Porque se o fizerem, é bem provável que quebrem o muro para vender a obra (sim, isso já aconteceu sim!). E mesmo o elusivo Banksy, se estamos falando de arte de rua, já parou de colocar seu nome nos trabalhos a muitos anos. E vamos falar sério, se você vê um banksy ou um osgemeos na rua, você reconhece tranquilamente.

Então ficam as questões. Vamos considerar qual é o papel da assinatura em uma obra nos dias de hoje. O que você pensa a respeito. Deixe sua opinião e vamos conversar a respeito.

Riven tem a arte como motivadora, a música como inspiração e o planejamento como instituição. Esta junção dos dois hemisférios do cérebro garantem uma abordagem diferenciada e eficiente na resolução de tarefas e problemas.