Marvel, Jessica Jones e o mundo adulto de Alias

Por Riven Melito, | Categoria: Literatura

Você já assistiu a série da Netflix Jessica Jones? Se não, recomendo fazê-lo antes de ler este post. Não que eu irei dar muitos spoilers, mas provavelmente algumas surpresas leves e conexões com os quadrinhos acabem te incomodando. Este post é sobre os comics, em relação com os vídeos, e o ambiente que a Marvel está inserindo nas suas séries da Netflix. Se isso não te atrapalhar na hora de assistir,  clique aqui e mergulhe de cabeça.

Seja bem vindo, viajante. Vejo que você é uma pessoa de coragem, e não se amedronta ante possíveis (pequenos) spoilers. Provavelmente até esteja lendo este post para poder ver a série com um pouco mais de embasamento, não é? Obrigado por ter vindo, pode entrar que a água está morna.

A água pode até estar, mas no mundo de Jessica, as coisas são mais complicadas. Só para começar, deixe-me explicar uma coisa: Jessica Jones não é uma série ‘normal’ da Marvel. Depois de Demolidor, parece que a produtora está ramificando seu público para conteúdos mais adultos, mais inteligentes. Demolidor foi ótima, trazendo um personagem muito profundo e complexo, como nós, seres humanos, somos. Uma história extremamente bem elaborada, com heróis e vilões críveis, diferente dos deuses mitológicos e gigantes verdes sem muitas camadas para decifrar (vou admitir que é muito mais fácil abordar isso em quadrinhos ao longo dos anos, do que em um filme de 2 horas). Pois é, Demolidor abriu o caminho, e Jessica Jones meteu o pé na porta. Agora a Marvel quer soltar o Kraken dentro da Netflix.

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Jessica Jones é a série televisiva baseada nos quadrinhos Alias, que foi publicada a partir de 2001 dentro da revista MAX, voltada para o público adulto. Se você acha que quando falamos de quadrinhos adultos quer dizer pornografia, revise seus conceitos. Quadrinhos adultos são publicações voltadas a pessoas que preferem material mais bem feito, com histórias mais densas e bem desenhadas (diferente do quadrinho normal!??!), com menos caras de colante e cueca por fora da calça, e mais enredo.

Bem, Alias foi apresentada com essa proposta, e bem numa época do politicamente  correto ascendente. Mas quando o (na época) Presidente de Publicações da Marvel Bill Jemas recebeu o roteiro, e logo na primeira página, na primeira palavra, “Fuck”fez com que ele apenas se virasse para os presentes e perguntasse: “E por que não poderíamos publicar isso?”. Pronto.

E realmente o conteúdo é adulto, tanto nos quadrinhos quanto na série da Netflix. Se você remover os superpoderes, é perfeitamente possível continuar a história sem perda alguma de roteiro. E o tom sombrio, noir dos quadrinhos escritos por Brian Michael Bendis e desenhados (na maioria) por Michael Gaydos com as impressionantes capas de David Mack, está também excelentemente caracterizado na telinha.

Mas vamos ao que interessa na história e um pouco da relação entre as duas mídias (SPOILER ALERT, mas não muito grave). A história: Os roteiros circulam ao redor da personagem principal, Jessica Jones, uma superheroína que já andou com os caras da primeira divisão (diga-se Vingadores), mas que abandonou todo o glamour e deuses louros para se tornar uma detetive particular, meio quebrada, bêbada, fumante e amarga. Sem amigos, ou quase, que resolve casos regulares de cônjuges infiéis e dívidas atrasadas com inclinação para pessoas com poderes. Nos quadrinhos isso é mais forte, a agência dela, que se chama Alias (daí o nome da série) é especializada em superhumanos envolvidos em casos mundanos que requerem um poderoso para dar conta. Jessica resolve seus casos enquanto cata os pedacinhos de sua vida já meio na merda.

Ela tem problemas, sim, que não tenho certeza se devo falar agora ou não, mas que envolvem um relacionamento abusivo, estupro (imagina, um superpoderoso ser estuprado!?!? Pode isso, Arnaldo?), tortura psicológica e outros traumas que ela tenta superar de forma a tentar uma vida normal. Afinal, problemas que pessoas comuns e ordinárias sem poderes estão sujeitas a sofrer. Coisas que provavelmente você viu nos noticiários esta semana, na coluna policial ou em algum video bizarro por aí. Entende agora como o conceito de quadrinhos adultos é muito mais do que se imagina? E finalmente a Marvel achou que o público normal que adora Homem de Ferro tem maturidade suficiente para conseguir ver isso na televisão. Ao menos na Netflix.

Vale destacar o trabalho dos atores na série. Khrysten Ritter (Breaking Bad, Don’t Trust the Bitch on Apt. 23) está ótima no papel de Jessica, muito madura, com um ar sombrio, meio noir do personagem, bem como o vilão Kilgrave, interpretado pelo eterno Dr. Who, David Tennant. Suas interpretações dos personagens são o tom da série, e funciona.

MARVEL’S JESSICA JONES Kilgrave_Jessica_Jones_01

Quanto aos personagens em si, não vou dar spoilers agora, apenas explicar que o vilão Kilgrave é uma versão do Purple Man, conhecido dos quadrinhos da Marvel, e realmente o arqui inimigo de Jessica (ao menos neste arco de histórias), por isto essa foto de David com essa luz roxa, sacou? Sacou? Sacou?

E não são apenas os personagens principais que trazem a densidade da história. Luke Cage (Mike Colter), tem na série a mesma ginga dos quadrinhos, e faz uma cena de luta muito mais crível e perfeita para o seu personagem do que as milhares de lutas dos Vingadores, com seus efeitos de milhões de dólares. Se você é invulnerável/superforte, técnica pra quê? Trish (Rachael Taylor) é muito mais do que um sidekick ou á garota que grita’. Ela tem personalidade, e realmente pensa. E assim todos os outros que fazem parte do enredo da série. Carrie-Anne Moss está perfeita como a advogada-bitch, mas que a cada episódio você não sabe se ela é boa, má, ou simplesmente foda-se. Isso é algo que me prendeu na série, e igualmente nos quadrinhos. Nada é assim ou assado. As personagens tem camadas, ambições, e tomam decisões burras ou nem tanto, como seres humanos normais.

Como disse antes, e repito. Se removêssemos os poderes a série continuaria muito boa. O fato de Jessica poder levantar um carro ou Luke Cage fazer um sexo tão animal que quebra a cama são apenas um gostinho a mais, a cereja do bolo. O desrespeito de Kilgrave pela moralidade e a humanidade não precisaria de poderes. Na verdade existe muita gente assim por aí.

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Por fim, aguardamos novidades. Tanto a Marvel como a Netflix adiantam que em 2016 muito mais está por vir. Confirmada já está a segunda temporada de Demolidor, e o início da série do Luke Cage (Punho de Ferro, Defensores!!?!? Será?). Chega logo, reveillón!

Agora, após assistir os vídeos, ler os quadrinhos e tudo o mais, eu gostaria de saber sua opinião, e se você tiver alguma pergunta, fique á vontade. Estou aqui para tirar dúvidas também. Ah, só pra acabar, um pequeno teaser possível da segunda temporada do Demolidor. Nada confirmado ainda, mas quem lê quadrinhos e viu a série vai se ligar. Um abraço.

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Riven tem a arte como motivadora, a música como inspiração e o planejamento como instituição. Esta junção dos dois hemisférios do cérebro garantem uma abordagem diferenciada e eficiente na resolução de tarefas e problemas.