Damien Hirst. Quando o dinheiro controla a arte.

Por Riven Melito, | Categoria: Arte

Damien Hirst é hoje o mais bem sucedido (ou pelo menos no top 3) artista do mundo todo, com um patrimônio estimado em aproximadamente 190 milhões de dólares. Suas obras vendidas por valores astronômicos garantem ao artista o status de “o maior do mundo” na arte contemporânea. Entretanto, muitos refutam sua arte, sua fortuna e até mesmo sua criatividade. Será que o dinheiro suplantou a arte na sociedade em que vivemos?

Talvez você não conheça Damien Hirst. Talvez nunca tenha entrado em uma galeria ou adquirido uma obra de arte. Talvez até não consiga diferenciar arte moderna de arte contemporânea. Tudo bem. Mas provavelmente você já deve ter lido algo ou visto alguma foto de um trabalho de Hirst. Por exemplo, o tubarão num tanque de formaldeído? É dele. A caveira humana recoberta de diamantes? É dele. Quer dizer, dele, porque pertencem a ele.

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Apesar de aclamado como um dos maiores nomes da arte contemporânea (a arte moderna acabou mais ou menos em 1945. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente), Damien Hirst também coleciona desafetos, seus e de outros. Existe hoje uma celeuma sobre ‘para onde a arte está indo’, e o papel do dinheiro nisso tudo, tendo Hirst como um dos mais massacrados sobre essa concepção, simplesmente pelo fato de que sua arte parece fácil, sem esforço criativo e pré-fabricada. Sim e não. Com certeza existe muito mais nisto tudo do que parece. Mesmo assim, o principal artista dos anos 90 continua relevante, de uma forma ou de outra quase 20 anos depois, além de todo esse burburinho. E qual é o seu valor afinal?

NO SALES, NO ARCHIVE MUST ONLY BE USED IN CONNECTION WITH PICASSO AND BRITAIN EXHIBITION Tate Modern undated handout photo of Damien Hirst with Mother and Child Divided exhibition copy 2007 in the Turner Prize: A Retrospective at Tate Britain. The work is part of the Damien Hirst exhibition at Tate Modern which runs from April 5 to September 9. PRESS ASSOCIATION Photo. Issue date: Thursday March 3, 2011. See PA story ARTS Tate. Photo credit should read: Andy Paradise/Tate Modern/PA Wire NOTE TO EDITORS: This handout photo may only be used in for editorial reporting purposes for the contemporaneous illustration of events, things or the people in the image or facts mentioned in the caption. Reuse of the picture may require further permission from the copyright holder.

Damien Hirst é um artista, mas também é empreendedor, curador, colecionador de arte e galerista (pode-se dizer), tendo aberto o caminho para uma mentalidade diferente no comércio de arte. Sim, porque em toda a história, as galerias sempre detiveram o poder sobre a obra e o valor de um artista. Você quer ser reconhecido? Então algum galerista precisa de “apoiar”. Precisa investir em você, te levar pela mão e fazer sua obra valer alguma coisa. Quantas vezes é possível ver nas ruas um autor excelente, vendendo uma pintura maravilhosa (por exemplo) por um décimo do valor que a mesma teria dentro de uma galeria?

E este é o mundo artístico em que vivemos. Não importa se você é bom ou quer dizer alguma coisa. Importa sim se sua obra é cara, e isso mede sua proeminência. Muitas vezes a galeria chega a comprar coleções completas de obras de artistas, para depois que este fizer sucesso, revender por 10 vezes mais. Este tipo de comportamento capitalista (obviamente, esperava o quê) Hirst revelou desde seu início de carreira, onde vendeu obras por 10, 20 50 mil dólares que hoje chegam a valer 2, 3 milhões. Mas vou explicar melhor, porque pode parecer que ele é um safado ganancioso. Não é bem isso.

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Um dos primeiros trabalhos de Damien, a instalação que você vê acima, chamada A Thousand Years foi comprada em 1988 por Charles Saatchi (publicitário inglês e colecionador de arte milionário), por algumas dezenas de milhares de dólares. Saatchi acompanhou Hirst por muitos anos até que diferenças artísticas os separaram. O publicitários bancou  muitos projetos do artista, tendo adquirido muitas de suas obras que hoje valem milhões de dólares. Esta instalação que conta com uma cabeça de boi fechada em uma caixa de vidro cheia de larvas e moscas de demonstram a temática de morte que Damien recorreu em muitos trabalhos de sua carreira, e foi elogiada até mesmo pelo impressionante Francis Bacon, traz a pergunta que muitos propõem atualmente: Isto é arte porque custa caro? Em 2004 Saatchi vendeu a instalação do tubarão (acima) pela bagatela de 12 milhões de dólares. Fraco, não? Mas veja a instalação abaixo:

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A obra acima se chama Lullaby Spring, e faz parte de uma série. É composta basicamente de um gabinete de aço com prateleiras onde repousam 6.135 píluas coloridas colocadas manualmente uma a uma na ordem especificada. Esta é a obra de arte contemporânea que alcançou o maior valor em leilão de toda a história. A bagatela de 19,2 milhões de dólares. Só? Manda duas, por favor.

Afinal, uma das maiores contribuições de Damien para o mundo da arte não é necessariamente sua obra. Mas o fato dele ter “cortado o intermediário”. Damien tem suas próprias galerias, vende suas obras diretamente, e foi o primeiro a fazer um leilão de suas obras por conta própria, arrecadando dezenas de milhões diretamente para seus bolsitos. Lullaby Spring foi vendida neste leilão para um Sheik do Qatar.

E o valor de Damien Hirst como artista, como mensurar? É sabido que o mesmo possui uma fábrica, e emprega diversos outros artistas para produzir suas obras, que muitas vezes o próprio Hirst nem mesmo toca. Ele considera que sua idéia é o que garante a propriedade, não quem faz. E admite isso, dizendo que uma vez tentou fazer um de seus quadros de pontos (sim, um quadro branco com bolinhas coloridas. Tem um em uma foto anterior) mas ficou uma merda, então a pessoa que faz seus melhores quadros é outra pessoa. E também uma vez uma de suas pintoras estava deixando a fábrica e pediu a Damien um de seus quadros. Ele respondeu, você pode fazer um você mesma, ao que ela respondeu, “sim, fui eu que fiz, mas se tem seu nome ele vale muito mais”.

Reconhecidamente em diversas obras a maior conribuição do dono foi apenas uma idéia passada direto para o executor, ou uma linha de texto em um papel entregue para alguém. E este é mais um detalhe na longa trama do trabalho de Damien. Será também o trabalho manual do artista o seu valor?

Essa questão deve ser tratada, conversada. Vivemos em uma sociedade onde o consumo e o trabalho manual são as únicas formas de valorização de qualquer exercício? Pensar vale milhões ou é necessário realmente colorir uma folha para que isso seja válido? São questões difíceis de conceituar, e com certeza cada um de nós vai ter uma opinião.

Eu adoraria continuar esta discussão. Então vamos. Comente.

Riven tem a arte como motivadora, a música como inspiração e o planejamento como instituição. Esta junção dos dois hemisférios do cérebro garantem uma abordagem diferenciada e eficiente na resolução de tarefas e problemas.